sexta-feira, 2 de julho de 2010

Yoga: Prática do Aqui e Agora

Quando se fala em Yoga, a maior parte das pessoas logo pensa no ásana, visualizando alguém em uma postura física. Contudo ele é apenas uma mínima parte do riquíssimo sistema filosófico que é o Yoga. O ásana faz parte do imenso arsenal de “ferramentas” apresentadas pelo Yoga para nos conduzir ao caminho da auto-realização e libertação espiritual.
Dentro desse sistema, os ásanas têm entre seus objetivos melhorar a saúde como um todo, através da purificação dos canais e condutos do nosso organismo, desde os mais densos até os mais sutis, os que carregam substância material e os que transportam bio-energia. Eles equilibram todos os sistemas do corpo, auxiliam na eliminação de toxinas, mantendo o organismo saudável e com vitalidade. Além disso, desenvolvem alongamento, flexibilidade, resistência e a consciência corporal e fazem uma integração entre o corpo e mente do praticante, diminuindo, dessa forma, o efeito do estresse e o aparecimento de doenças, desequilíbrios e distúrbios, sejam no nível físico, mental ou emocional.

Tudo isso para que possamos nos ver livres das aflições do corpo e da mente, que criam ansiedade, raiva, preguiça, tristeza. E assim, buscar a felicidade e a harmonia de uma vida com uma boa saúde e emoções estáveis. O bem estar proporcionado pela prática de ásanas tranqüiliza a mente e, conjuntamente com as demais práticas do Yoga, aos poucos diminui os sentimentos negativos e improdutivos, levando-nos a um estado de clareza mental e tranqüilidade para a busca da meta última da vida segundo essa filosofia: evolução espiritual.

Mas a prática isolada de ásanas não é uma garantia dos benefícios citados acima (e de muitos outros), muito embora já estejamos no caminho ao praticá-los. Apesar dos ásanas do Yoga envolverem movimentação física, não são uma modalidade esportiva ou uma ginástica, apesar de alguns benefícios físicos em comum com essas atividades. E a diferença está na pratica conjunta das demais “partes” do yoga, e também na filosofia por trás da prática, que levam o praticante a uma transformação profunda, inicialmente no aspecto físico indo gradualmente ao espiritual. Por isso, um ponto é muito importante na prática dos ásanas: o estar presente no Aqui e Agora, mantendo a atenção não apenas na execução física primorosa da posição, mas também nos sentimentos, sensações, percepções e estados mentais e emocionais que o ásana cria em nós. A perfeição na prática do ásana é antes um estado mental de presença, uma atitude de completude, tão ou mais importante até que a atitude corporal.
Segundo David Frawley, conceituado estudioso de Yoga e Medicina Ayurvédica:
“Ásana não é apenas estrutura e energia, mas também um reflexo de pensamento e intenção. Nós poderíamos chamar ásana como uma forma pensativa e mentalizadora de exercício. Os efeitos do mesmo ásana irão depender da nossa mente estar clara ou nublada, e nossas emoções estarem calmas ou turbulentas. Nós podemos fazer um ásana com precisão técnica, mas nosso estado mental é que realmente determinará o quão libertador o ásana é para nossa consciência.”

Ainda segundo esse autor, se nossa consciência não estiver envolvida durante o ásana, então nossa prática permanecerá em um nível superficial. Por isso, além de prestarmos atenção na estrutura da postura, devemos estar atentos ao que se passa em nosso mundo interno, devemos permanecer atentos ao nosso estado mental. Geralmente nossa mente está sempre vagando entre os acontecimentos, arrependimentos e nostalgias do passado e os planejamentos, temores e esperanças do futuro; o presente fica tristemente perdido entre esses dois pólos. Estar presente no aqui e no agora faz com que tenhamos mais clareza e discernimento em nossas atitudes. Isso funciona também na prática do ásana. Aliás, ela pode e deve ser utilizada para aprendermos a desenvolver esse “estado de presença”.

Nosso corpo físico é um veículo e um reflexo de nosso mundo interno. Na prática do ásana, o corpo é colocado em uma determinada posição, estruturada para trabalhar determinados aspectos, físicos e/ou mentais do praticante. Ao nos mantermos atentos e presentes em nossa prática, somos capazes de identificar o que se passa em nosso mundo interno. Passamos a ser um observador de nossas reações à postura física: nossas preferências, aversões, qual postura gostamos mais, de quais não gostamos, o que sentimos ao conseguir fazer a posição, o que sentimos quando não conseguimos, como estamos respirando, etc.
Segundo TKV Desikachar, em seu livro “ O Coração do Yoga”: “Yoga também significa agir de maneira que toda a nossa atenção esteja dirigida à atividade que estamos desenvolvendo no momento.”
No caso da prática dos ásanas, através dessa atenção e observação, uma série de informações a nosso respeito começam a surgir e podemos compará-las com as atitudes que temos no dia a dia, em outras situações, sejam no âmbito familiar ou no trabalho, no lazer, etc.
Buscando essa atitude, a prática de ásanas pode se transformar em um momento de reflexão e análise a respeito de nossas tendências e propiciar insights sobre como reagimos aos acontecimentos da vida; é um momento de svadhyaya, palavra em sânscrito que nesse contexto pode ser traduzida como auto-estudo, auto-observação. Ainda por Desikachar:
“ Yoga é uma prática de observação de si mesmo, sem julgamento.(…) É algo que experimentamos profunda e intimamente dentro de nós. Yoga não é um experiência externa. Em Yoga, tenta-se em todas as ações ser o mais atento possível em tudo o que se faz.(…) No Yoga não estamos criando algo para os outros assistirem. Quando fazemos vários ásanas, observamos o que estamos fazendo e como estamos fazendo. Fazemos apenas para nós mesmos. O praticante é o obsevador e o objeto de observação ao mesmo tempo. Se não prestarmos atenção em nós mesmos na nossa prática, não podemos chamá-la de Yoga.”
Esse auto-estudo e observação é o caminho tão desejado para o auto-conhecimento, que pode ser alcançado com o estar presente e atento ao Aqui e Agora, não apenas nas posturas do corpo, mas em todas as nossas atitudes. A prática dos ásanas pode ser um bom momento para começar, pois é dando os primeiros passos que se começa uma caminhada.
Paz profunda, equilíbrio e boa prática!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Estética Social


Passeando por blogs que dialogam sobre comportamentos estéticos, me veio o interesse de tentar responder perguntas para as quais, muitas vezes, não temos resposta.Um ambiente que nos remete a sensações agradáveis é sempre um bom ambiente. É, de fato, a primeira coisa que buscamos quando vamos conhecer um lugar novo. Não há dúvidas de que quanto maior for o envolvimento de nosso conforto externo, cada vez mais perto estaremos da sensação de receptividade, e mais abertos, portanto, a manifestar nossas emoções. Certo? O que acontece é que, dentro das possibilidades de fornecer conforto inclui-se a seguinte questão: o que é confortável pra você?

Essa é uma pergunta que, geralmente, nossos pais e avós fazem a si mesmos, para entender o que essa tal de modernidade veio fazer por aqui. E eis a questão, alguém consegue me explicar qual o prazer em perfurar o corpo e suspendê-lo a metros de altura? Imaginem que nós, jovens adultos, também nos questionaremos com o aparecimento de novas tecnologias, e junto a elas, com as diversas tribos que as identificam; haja vista a era das vestimentas, piercings, tatuagens – que fazem parte de nossa geração – e agora a era digital, que não só nos deixa a par, como enfatiza que somos aquilo que possuímos. Mas, não combinaria melhor se possuíssemos algo por aquilo que somos? Não culpo o meio, ele é tão válido que me permite compartilhar essa observação. No entanto, quão isso é difícil nos tempos modernos?

Em ordem de importância, primeiro vem a classe social. Nosso consumo sempre é mediado pela quantidade de cifrões que temos na conta – na verdade, bom seria se não existissem os cartões de crédito. Nossa vontade não, sempre vai além – por isso queremos trabalhar mais, para ganhar mais, para comprar mais. Passando por esse filtro, a escolha parte para a estética, e depois para a funcionalidade do produto. Há quem questione essa relação, e realmente, esse é um dos problemas insustentáveis que ajudam a compor o iceberg das questões emergentes do planeta, então…

Voltando a questão que me inspirou a escrever esse post, aquilo que definimos como gosto, pode ser muito mais significativo do que uma simples atração por determinado objeto de estilo, já percebeu?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Se Não Fizerem a Coisa Certa...Ela Vai Deixar De Ser Nossa!

 Amazônia: Quem disse que é nossa?

A Amazônia não é uma prioridade real para os brasileiros, mas é uma prioridade mundial. Vem da Amazônia a má notícia de que o desmatamento cresceu além das previsões. Mas o que se chamava de boa notícia, em anos anteriores, afinal não era nada de tão bom assim: registrou-se, apenas, que o ritmo da devastação estava caindo e não que a tivessem interrompido, por um dia só que fosse. Vou perdendo a paciência com essas estatísticas e gostaria de fazer uma observação simples e radical.
Sempre que alguém fala em "internacionalizar a Amazônia", surge um grito de guerra: "A Amazônia é nossa!".
Mas como assim, "é nossa?". A Amazônia, no momento, é dos que a invadem e devastam. Sejam madeireiros, plantadores de soja, pecuaristas, mineradoras ou fabricantes de ferro-gusa que, segundo documento divulgado pela Confederação Nacional da Agricultura, precisam de mais florestas para fazer carvão do que os bois precisam de pastagens.
A Amazônia seria "nossa" se o poder público tivesse condições de impor a lei naquela região, se conseguisse fiscalizar e punir quem promove o desmatamento.
Mas o poder público brasileiro não consegue sequer fiscalizar e impor a lei dentro dos presídios de segurança máxima... Lugares onde, se existe algum, a fiscalização deveria ser total e o império da lei assegurado à risca.
Quando ocorre algum genocídio não sei em que lugar do mundo, é natural que se peça a intervenção da ONU. O que não significa dar carta-branca para uma potência tomar conta das riquezas de um país.
O que ocorre na Amazônia tem tudo para ser tão preocupante quanto um genocídio. A humanidade inteira é vitimada enquanto nós, brasileiros, agimos como aqueles manifestantes sérvios que orgulhosamente desafiavam as tropas internacionais, em completo desprezo pelas minorias étnicas que eram dizimadas por ali.
Achamos correto quando crimes contra a humanidade são submetidos a tribunais internacionais.
Pouca gente se dispôs a defender Pinochet quando um juiz espanhol considerou que as fronteiras chilenas não o protegiam do que fez contra o gênero humano.
Talvez não seja adequado levar os responsáveis pela devastação a um tribunal suíço. O caso em prol da Amazônia pode ser enunciado de forma diferente.
Trata-se de devolver às populações locais uma terra que pode ser explorada racionalmente se contar com ajuda, fiscalização e verbas do mundo inteiro.
Se governos estrangeiros e entidades internacionais, em concordância com o Brasil, puderem intervir no sentido de fazer da floresta uma região de preservação ecológica mundial, creio que a Amazônia seria mais "nossa" (isto é, de quem vive lá e não a derruba) do que é atualmente.
Outras "soluções", para dizer francamente, não me parecem soluções. Quem imagina que o Ibama, o Exército, a Polícia Federal dispõem de recursos suficientes para tomar conta de tudo aquilo? E que direito temos nós de mascarar nossa ineficiência, nosso desleixo, com um nacionalismo que não engana ninguém?
O fato é que a Amazônia não é uma prioridade real para os brasileiros, que têm problemas terríveis a resolver bem mais perto -debaixo de cada ponte e viaduto urbano, para dizer o óbvio. Mas é uma prioridade mundial.
Parece-me infantil dizer que os americanos vão chegar aqui e tirar "nossas" riquezas. Quem está acabando com elas, e enriquecendo à custa de todo o planeta, é a madeireira (nacional ou não, isso pouco importa), o pecuarista, o plantador de soja.
O governo brasileiro bem que gostaria, imagino, de limitar esse enriquecimento. Mas não é objetivamente capaz disso.
Concordo que "internacionalização" é uma palavra forte demais. Sugere a entrega de nossa soberania, sem nada em troca. Outras fórmulas, mais suaves, podem ser concebidas pelos especialistas no assunto. Não sou especialista no assunto. Pessoalmente, não temo usar a palavra. Nossa soberania, afinal, não existe. Existiria se pudéssemos impor nossa vontade sobre a região. Ano após ano, é precisamente isso o que verificamos não acontecer.
Por Marcelo Coelho

Acessem o Portal Ecodebate-Meio Ambiente e Cidadania: www.ecodebate.com.br

sábado, 8 de maio de 2010

Revolução da Colher

REVOLUÇÃO...
Com a espada,
 Com a escrita,
Com a palavra,
Com a COLHER!!!
A revolução é entre você e seu prato.
O que você come traz conseqüências políticas, ambientais, econômicas e sociais que a maioria de nós desconhecemos. A Colher é nossa melhor arma. 
Comer carne é um hábito cultural e adquirido e não algo "natural" ou inerente ao ser humano; originalmente éramos nômades e coletores e depois agricultores e caçadores, mas mesmo a caça era algo muito diferente do que temos hoje com a produção em massa de animais para consumo.
A produção de carne polui mais da metade da água potável usada no mundo, um dos maiores fatores do desmatamento, poluição do solo, polui o ar mais do que os transportes somados. A produção de carne é um dos fatores que mais contribui para a degradação ambiental.
Saber por que tirar a carne de seu prato pode ser mais efetivo que fazer uma marcha política ou caridade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

No Coração do Progresso

Há séculos a civilização ocidental vem correndo atrás de tudo o que classifica como progresso. Essa palavra mágica aplica-se tanto à invenção do aeroplano ou á descoberta do DNA. Mas quero chegar logo ao ponto, e convidar o leitor a refletir sobre o sentido dessa palavra, que sempre pareceu abrir todas as portas para uma vida melhor.

Quando, muitos anos atrás, num daqueles documentários de cinema, via-se uma floresta sendo derrubada para dar lugar a algum empreendimento, ninguém tinha dúvida em dizer ou pensar: é o progresso. Uma represa monumental era progresso. Cada novo produto químico era um progresso. As coisas não mudaram tanto: continuamos a usar indiscriminadamente a palavrinha mágica. Mas não deixaram de mudar um pouco: desde que a Ecologia saiu das academias, divulgou-se, popularizou-se e tornou-se, efetivamente, um conjunto de iniciativas em favor da preservação ambiental e da melhoria das condições da vida em nosso pequenino planeta.

Para isso foi preciso determinar muito bem o sentido de progresso. Do ponto de vista material, considera-se ganho humano apenas aquilo que concorre para equilibar a ação transformadora do homem sobre a natureza e a integridade da vida natural. Desenvolvimento, sim, mas sustentável: o adjeivo expime uma condição, para cercear as iniciativas predatórias. Cada novidade tecnólogica há de ser investigada quanto a seus efeitos sobre o homem e o meio em que vive. Cada intervenção na natureza há de adequar-se a um planejamento que considere a qualidade e a extensão dos efeitos.

Em suma: já está ocorrendo, há algum tempo, uma avaliação ética e política de todas as formas de progresso que afetam nossa relação com o mundo e, portanto, a qualidade da nossa vida. Não é pouco, mas ainda não é o suficiente. Aos cientistas, aos administradores, aos empresários, aos industriais e a todos nós - cidadãos comuns - cabe a tarefa cotidiana de zalarmos por nossas ações que infletem sobre qualquer aspecto da qualidade de vida. A tarefa começa em nossa casa, em nossa cozinha e banheiro, em nosso quintal e jardim - e se estende à preocupação com a rua, com o bairro, com a cidade, com o planeta.

"Meu coração não é do tamanho do mundo", dizia o poeta. Mas um mundo que merece a atenção do nosso coração e da nossa inteligência é, certamente, melhor do que este em que estamos vivendo.
Não custa interrogar, a cada vez que alguém diz progresso, o sentido - talvez oculto - da palavra mágica empregada.

Por Alaor Adauto de Mello 

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval: a festa do vale-tudo!


O carnaval é definido como “liberdade” e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, pecado, obrigações... e deveres. Trata-se de um momento onde se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver com excesso de prazer, de riqueza, de alegria, de riso; de prazer sensual que fica – finalmente – ao alcance de todos.
Este sentido de “pode tudo”, que segue mais ou menos a lógica do “jeitinho” no dia-a-dia ganha força neste período carnavalesco. Como se fosse uma catarse coletiva há uma euforia no ar – mesmo de quem está distante da chamada folia. Não se trata de uma festa... É a FESTA.

Sai o uniforme, entra a fantasia; Saem 08 horas de trabalho, entram 08 horas atrás do trio elétrico, do frevo, das escolas de samba. Tudo pelo prazer, tudo pela sensação de liberdade que a maior festa popular do mundo oferece. Neste mundo de prazer e alegria, todos os outros assuntos ficam em segundo plano. Sob a justificativa do bordão “É carnaval!”, fatos importantes ou relevantes são deixados de lado. Ou mesmo o que acontece ao lado do folião é desprezado, esquecido.

O carnaval de Salvador recebe o título de “maior festa com participação popular do mundo”. Estima-se 2 milhões de foliões atrás dos trios elétricos de seus artistas preferidos ou não. O antigo folião pipoca, aquele que não saía em blocos com abadas ou não comprava seu acesso a camarotes, está em vias de extinção. Ainda há a participação popular nos blocos menores, mas estes não saem durante o Jornal Nacional. Outro aspecto que merece atenção é a violência policial utilizada, claro, nos “ppp’s”: Pretos, pobres, periféricos. Assistindo a cobertura do Carnaval pela TV tudo é muito bonito e democrático. E é só festa e alegria.

Exploração sexual de crianças e adolescentes que aumenta durante este período, hospitais lotados com pacientes que extrapolam na festa e arrumam confusões, acidentes de trânsito por alcoolismo que a cada ano batem recordes, tanto nas cidades como nas estradas... Todos estes assuntos são relegados a segundo, terceiro plano. O negócio é a folia, a festa, o vale-tudo, a todo e qualquer custo... Mesmo que o custo seja um abadá comprado por 3 mil reais ou o aluguel de uma quitinete por 4 mil reais por 4 dias.

Não pretendo tornar este texto negativista ou conservador. Não é a intenção. Carnaval é mesmo uma grande festa e há diversão para todo gosto e bolso. Mas viver 1 semana distante do “mundo chato e uniforme” também não é boa idéia: Mais um bebê é encontrado no lixo em São Paulo. Mesmo com toda as festividades ocorrendo no país, não dá pra desprezar isso.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Partos Conscientes: O Mundo Precisa Disso

O que era íntimo, feminino, doméstico, hoje em dia se transformou num ato médico, hospitalar, frio... É preciso que mais e mais mulheres se preparem para ganhar suas crias através de partos conscientes, rompendo com mandatos internos ligados ao que aprenderam na família e na nossa cultura moderna. Não apenas pelos cuidados com o bebê, que merece vir ao mundo com todo o respeito e amor, mas também pela mulher que é totalmente transformada pela vivência de se tornar mãe.

Humanização do Parto. Por Quê?
Nascimento… Palavra que suscita memórias, momentos fortes, início da vida... Todos fomos bebês um dia, passamos do ventre ao mundo externo. Alguns nasceram facilmente, outros com muita dificuldade. Cada nascimento é uma história única, singular, nenhum nascimento é igual ao outro, assim como nenhum ser humano.

Ao longo da história da humanidade, as formas de parir vieram mudando, recebendo interferências de toda a tecnologia criada pelo homem civilizado. Em tempos remotos, qualquer problema durante um nascimento poderia significar a morte da mãe e/ou do bebê, muitas vezes apenas um poderia sobreviver a determinadas complicações. A tecnologia veio para minimizar a quantidade de mortes, a medicina entrou no mundo dos nascimentos para poder garantir a segurança de mães e bebês.

No entanto, após séculos de desenvolvimento tecnológico do meio médico, o excesso de tecnologia, em nome da segurança, acabou por afetar muito a qualidade dos nascimentos. A naturalidade perdeu-se e os partos deixaram de ser eventos fisiológicos e passaram a ser eventos médicos, a parturiente deixou de ser ativa e se tornou paciente. O parto "normal" se tornou raro e o normal se tornou o parto por cirurgia cesariana.
Todas essas modificações tiveram enorme peso sobre a forma de ser mãe. A gestação e o momento do nascimento do bebê são, para a mulher, um processo de muitas mudanças. Todas as alterações fisiológicas e psíquicas que advêm da gestação e do parto traduzem o trabalho da natureza de preparação da mãe que está por vir. Fisiologicamente, o corpo da mulher grávida recebe uma grande dosagem de hormônios que preparam o corpo para o desenvolvimento e nascimento do bebê. O corpo da mulher se torna mais flexível.

No entanto, existe uma conexão entre o corpo humano e o psiquismo, a mente, as emoções. Tudo o que acontece com o corpo está intimamente ligado a estes âmbitos. Logo, todas as alterações fisiológicas que ocorrem na gravidez falam também de alterações psíquicas, emocionais. A flexibilidade do corpo também está presente psiquicamente, o inconsciente fica mais acessível à consciência, a percepção fica mais refinada, a sensibilidade se aguça.
A gestação de um filho traz para a mulher um estado psíquico mais regredido, é como se ela pudesse se conectar novamente com seu lado infantil. Simbolicamente, a criança gerada dentro dela a conecta com a criança que ela também foi e que, em algum nível, ainda está presente. Passar por este estado comumente traz lembranças, memórias infantis, e o próprio ambiente familiar pode servir de motor para "desenterrar" memórias da futura mãe: conversas sobre bebês, sobre educação, sobre a relação mãe-filha, pai-filha, irmãos. A gestante pode entrar em contato com diversas lembranças que talvez estivessem guardadas e esquecidas há muitos tempo. A natureza, em sua sabedoria, proporciona essa flexibilidade psíquica e maior sensibilidade para que a mulher possa ser uma mãe melhor. Ao olhar para o passado, lembrar de sua infância, de como foi sua experiência de ser filha, a mulher pode transformar sua vida, fazer novas escolhas, resignificar seus traumas, suas crenças e sua experiência de vida.

No entanto, com toda a correria de nossa sociedade, é muito comum as mulheres passarem o período de gestação de forma atribulada, pensando mais nas questões do bebê ou nas condições externas do que no seu próprio processo enquanto gestante. O parto é um momento de ápice nesse processo, o momento em que ela vai se deparar definitivamente com a maternidade. A preparação para o parto comumente é restrita a procedimentos técnicos, como o pré-natal médico, que trata mais das questões fisiológicas, e a escolha da maternidade. O número de mulheres que passam por uma preparação profunda para o momento de parir, englobando aspectos, físicos, emocionais, espirituais, ainda é muito reduzido.

O que é preparação para um parto consciente?
O ápice da produção hormonal acontece exatamente durante o trabalho de parto. O momento do nascimento tem um potencial muito transformador para a mulher, exatamente por ser o clímax do rito de passagem que é a gravidez, o instante em que efetivamente a mulher se torna mãe, o bebê deixa de ser interno, se separa da mãe. Neste momento, o corpo está inundado de hormônios em uma dosagem que em nenhum outro ciclo ocorre na vida de um ser humano, e pode-se dizer que durante o trabalho de parto, imersa nessas alterações químicas, a mulher está em um estado alterado de consciência.
Se você perguntar a qualquer mulher que tenha parido um filho, ela dirá sobre este estado e muitas vezes ele fica claro para quem está acompanhando o processo. Este estado faz parte dessa sabedoria da natureza, é o momento do nascimento do bebê e da mãe. Quanto mais a mulher estiver consciente e presente em si no momento do parto, maior a possibilidade de este ser um evento profundamente transformador para ela. Muitas mulheres relatam que o parto foi uma virada em suas vidas, um momento em que puderam se conectar pela primeira vez com sua força, com sua feminilidade.

Por isso a preparação é tão importante. Não apenas pelos cuidados com o bebê, que merece vir ao mundo com todo o respeito e amor, mas também pela mulher, que assume um novo papel, que nasce como mãe. Mesmo que ela já tenha tido um filho antes, a cada gestação novas transformações acontecem, é um ser diferente dentro dela, e ela também terá que renascer como uma nova mãe. A preparação para um parto consciente é a preparação para ir fundo neste processo de parir, para estar ali com totalidade, presente em todos os sentidos e escolhas, ampliando a percepção, sentindo com o corpo inteiro.

Um dos principais entraves à vivência plena do momento do parto é a desconexão com o corpo. A grande maioria das pessoas tem uma relação distante com o próprio corpo. A musculatura em geral está muito tensa, contraída, como reação defensiva crônica ao estresse em que vivemos. Essas tensões crônicas modificam completamente nossa percepção e sensibilidade corporal. Quando sentimos dor, a primeira reação é contrair o corpo para que a dor desapareça mais rápido. No entanto, no momento em que contraímos, a dor se intensifica. É um paradoxo, mas assim fazemos inconscientemente em diversas situações de nossas vidas, não apenas em relação à dor física. Se estamos com raiva, nos contraímos para suportá-la, se estamos tristes, nos contraímos para não chorar, e assim seguimos.

No momento do parto, todas as crenças que nossa sociedade alimenta relacionadas à dor podem surgir, todos os medos da mulher podem vir à tona. A primeira reação será a de contrair-se. No entanto, o corpo trabalhou durante toda a gestação para abrir-se e flexibilizar-se exatamente porque isso é necessário para que o bebê nasça. Todo esse trabalho da natureza vai por água abaixo quando a mulher se deixa levar por medos e crenças negativas. Sem a consciência de como tudo isso afeta o seu corpo, fechando-o, tensionando-o, a mulher possivelmente enfrentará um trabalho de parto difícil, doloroso, talvez até problemático. Quanto mais ela estiver consciente e conectada com seu corpo, percebendo se há tensões, utilizando-o de forma a permitir que ele faça o trabalho dele, melhor será para ela e o bebê.

Repetimos fórmulas sem termos consciência do que estamos fazendo - A ampliação do nível de consciência geralmente acontece com um treinamento, e o fato da mulher estar mais sensível na gestação favorece a que ela consiga perceber as coisas mais rapidamente e facilmente do que talvez acontecesse se não estivesse grávida. Por isso, preparar-se para o parto ao longo da gestação poderá fazer toda a diferença. Se a mulher puder se conectar mais com seu corpo de forma consciente, se puder tomar consciência dos medos que estão presentes em sua subjetividade, como eles aparecem em seu corpo, se puder ir limpando todas as questões que possam ter sido traumáticas para ela, tudo isso poderá ser de grande valia para que a gestação e parto possam ser mais conscientes e plenamente vivenciadas pela mulher.

Muitas questões relacionadas à figura da mãe podem surgir durante a gravidez, a forma como fomos criados por nossas mães terá grande influência na forma como seremos mães. Há uma forte tendência em repetirmos muito do que vivenciamos com nossas mães, e geralmente isso acontece sem que tenhamos consciência. Outras vezes, pode ser que aconteça de fazermos tudo ao inverso do que nossas mães faziam. Não há nada de errado em fazer algo igual ou diferente do que nossos pais faziam, o problema está no fato de que muitas vezes repetimos as fórmulas sem termos consciência clara do que estamos fazendo, de que essas são realmente as escolhas que queremos fazer. Cada criança é um indivíduo diferente, único, e o perigo da repetição inconsciente é que o que fazemos pode não ser o melhor para aquele bebê, aquela criança, pois é um contexto novo.
Além disso, quantas vezes agimos sem consciência exata do que estamos escolhendo fazer e depois vemos que poderíamos ter escolhido diferente e melhor? Se durante a gestação a mulher puder se preparar e olhar mais a fundo suas motivações inconscientes, as marcas que ficaram de suas próprias vivências com seus pais, isso poderá ajudá-la a tomar suas decisões com mais consciência das conseqüências, com mais maturidade e autonomia. E, quando falamos de parto, o que comumente acontece é que muitas impressões a respeito do momento de parir são transmitidas de mãe para filha, geração a geração. Poder olhar para isso, para os mitos que herdamos da família ou da sociedade, com certeza também irá auxiliar a fazer melhores escolhas com relação ao parto e a ficar menos suscetível e vulnerável às influências externas.

E mais: é preciso ter a consciência de que tudo isso se reflete no corpo da futura mãe, portanto, mexer nessas questões psíquicas implica também em mexer com o corpo dela, trazer a consciência corporal. Por isso, atividades como yoga, massagem e respiração ao longo da gestação ajudam muito a melhorar a qualidade dos partos, especialmente se vierem associadas a um trabalho de ampliação da consciência e à elaboração de questões psíquicas e emocionais. Tudo o que favoreça à ampliação da percepção, da sensibilidade, a conexão com o corpo, com os sentimentos, a auto-observação, pode ajudar para que a experiência de parir e de ser mãe possa se tornar cada vez mais consciente e responsável. Quanto mais as mulheres puderem vivenciar com plenitude esses momentos tão especiais de suas vidas, maior a possibilidade de que as futuras gerações tenham esta vivência também modificada, pela transmissão de novas experiências.

Por Josie Zecchinelli: Psicoterapeuta Corporal e Educadora Perinatal


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